A Conexão Mente-Corpo e a Cura

A tomada de consciência da interação existente entre corpo-mente-espírito é a chave para a saúde global

Por Joseph Le Page

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Sob esta perspectiva, percebemos que a consciência corporal não é apenas um acessório para a saúde, mas a própria base para o estabelecimento da saúde e da cura.

A unidade mente-corpo-espírito, como nós a conhecemos e a experimentamos no Yoga, é o resultado de influências específicas dentro de nossa cultura.

Entendendo a história e o desenvolvimento dessas influências, nós podemos compreender porque a integração do corpo-mente-espírito está no cerne das abordagens orientais com relação à cura e quase inexiste na nossa própria.

 
Raízes Históricas da Separação Mente-Corpo-Espírito na cultura Ocidental

 

  • INFLUÊNCIAS DA CULTURA GREGA

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Muitas influências na nossa perspectiva de abordagem corpo-mente-espírito podem ser remontadas à civilização grega. Dentro da filosofia grega, o corpo físico era visto essencialmente como o templo da alma. Encontrava-se nesta tradição grega um sentido de integração corpo-mente- espírito como base para a saúde, que serviu de fundamento para o florescimento de escolas de cura mente-corpo. Isto é perfeitamente natural, já que a cultura grega se originou de um grupo cultural maior chamado Indo-Ariano, o qual incluía a cultura indiana.

Houve também intercâmbios entre a Índia e a Grécia, o que influenciou muitas escolas de filosofia grega. No segundo século, Plotinus descreveu o mundo como Luz Divina, onde tudo o que existe é Deus ou o Uno. O Mal em si mesmo não existe segundo Plotinus, mas é simplesmente a ausência desta Luz. Isto reflete a filosofia indiana predominante na época.

As raízes de nossa visão científica, racional do mundo e do corpo estavam também presentes na Grécia clássica, principalmente no racionalismo de Aristóteles. Aristóteles dividia o mundo natural em categorias ou áreas que podiam ser exploradas em detalhes, tendo ele sido considerado o pai da ciência e do academicismo. Esta divisão do mundo em componentes menores para estudo e entendimento lançou a base para o estudo científico do corpo como um objeto separado da mente e do espírito.

Um terceiro aspecto da cultura grega que iria afetar nosso conceito de corpo-mente-espírito é o Humanismo que dá enorme importância ao valor do indivíduo e à necessidade do desenvolvimento e aperfeiçoamento do corpo, mente e espírito.

 

  • INFLUÊNCIAS DA VISÃO DO VELHO TESTAMENTO

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Uma outra cultura com valores próprios existiu na região do Mediterrâneo no mesmo período. Era a cultura semítica dos árabes e judeus. Sua abordagem da vida contrasta nitidamente com a civilização grega. Sua visão de vida reflete-se no Velho Testamento, onde a natureza do homem é vista como fundamentalmente maculada e penalizada pelo pecado original.
Esta visão do mundo é parcialmente resultante do meio em que viviam - uma área de recursos limitados e competição férrea, onde a vida era dominada pelo medo e pela ameaça das tribos invasoras. O Deus do Velho Testamento é um patriarca severo que exige obediência e julga o bem e o mal.
Esta perspectiva cultural do corpo está demonstrada na história de Adão e Eva que foram expulsos do Paraíso por terem comido o fruto da Árvore do Bem e do Mal, o que em geral é igualado à descoberta do prazer em seus corpos. Sob esta perspectiva, a mente deve ser controlada através da culpa e da vergonha, devido à sua tendência de se render aos desejos da carne. A salvação é conseguida através da graça de Deus, juntamente com rituais apropriados e comportamento social adequado. O clã era dominante e o indivíduo secundário.

Em resumo, o puritanismo, a confiança na fé e no tribalismo do Velho Testamento contrastam com as três bases importantes do conceito corpo-mente- espírito na cultura grega: holismo, racionalismo científico e humanismo.

 

  • INFLUÊNCIAS DA VISÃO DO NOVO TESTAMENTO

Jesus foi um reformador dentro da tradição do Velho Testamento. Parece provável que o pensamento grego e indiano influenciaram seu desenvolvimento. Sua mensagem de amor e compaixão contrasta com o julgamento severo do Velho Testamento, mas seu público e seus discípulos que apresentaram sua mensagem estavam tão condicionados pela visão do mundo do Velho Testamento que a mensagem de Jesus de amor e perdão foi obscurecida até certo ponto pela visão negativa do corpo e da mente do Velho Testamento.
Quando o Cristianismo se espalhou pelo Império Romano nos três primeiros séculos depois de Cristo, uma síntese de ambas as influências grega e romana foi, de fato, incorporada. O Novo Testamento foi escrito em grego e a cultura grega formou a base filosófica da cultura romana. Nestes primeiros séculos, o Cristianismo foi um movimento revolucionário que trouxe uma espiritualidade viva para culturas cujas religiões tinham se tornado amplamente instituições políticas e sociais. A história inicial do Cristianismo foi de perseguição e martírio.

 

  • INFLUÊNCIAS DO CRISTIANISMO COMO RELIGIÃO OFICIAL DO IMPÉRIO ROMANO

No tempo em que o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano em 380 da era cristã, os aspectos mais patriarcais e autoritários se tornaram dominantes como um reflexo do Estado Romano que a Igreja passou a representar. Com a queda do Império Romano em 476 e com o declínio da cultura e da civilização na Europa Ocidental e Meridional, uma abordagem autoritária e patriarcal do Cristianismo, caracterizada pelo medo, superstição e conservacionismo prevaleceu.
Aqueles aspectos da cultura greco-romana que a Igreja permitia tinham que se adequar à visão do Cristianismo do Velho Testamento no qual a carne era considerada pecaminosa.

 

  • INFLUÊNCIAS DA IDADE MÉDIA

O aspecto da filosofia greco-romana desenvolvido por filósofos da Idade Média, tais como Tomás de Aquino, foi a validação do poder da razão. Ao enfatizar a razão e rejeitar o corpo, a mente e o corpo tornaram-se oficialmente separados.
Curiosamente, a maior parte da filosofia e da ciência gregas foi preservada pelos árabes cuja cultura experimentou um renascimento na Idade Média.

A Idade Média recebe esse nome porque representa o tempo entre o grande florescimento do Humanismo, na cultura grega, e o renascer do Humanismo, com o Renascimento, no final do século 14.

 

  • INFLUÊNCIAS DO RENASCIMENTO

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Durante o Renascimento, o corpo nu foi revitalizado na arte, e as grandes tradições da pintura e da escultura grega foram revividas. Os filósofos gregos clássicos, tais como Platão e Aristóteles, voltaram a estar em voga.

Dois aspectos importantes desenvolvidos no Renascimento tiveram influência poderosa na nossa percepção do corpo-mente-espírito:

  1. o ressurgimento do humanismo e a importância do indivíduo.
  2. a expansão do questionamento sobre a natureza da vida, o que criou as condições para a ciência moderna.

 

  • INFLUÊNCIAS DA INQUISIÇÃO

Também houve a atuação de forças contrárias durante o Renascimento. A Igreja Católica e as monarquias europeias trabalharam conjuntamente para esmagar qualquer divergência à doutrina cristã. O Humanismo e outras heresias, tais como a ideia de que o corpo poderia ser divino, ameaçavam o monopólio do poder medieval da Igreja e da monarquia. Durante os séculos 15 e 16, o Estado/Igreja iniciou uma Inquisição que era, de fato, um genocídio sistemático de místicos e curandeiros de todo tipo, com ênfase especial nas mulheres. Oito milhões de mulheres místicas e curandeiras foram assassinadas pela Igreja Católica e pelas elites de poder, aliadas por um período de tempo de trezentos anos.

Esse fato destruiu essencialmente todas as raízes da integração corpo-mente-espírito e as influências curativas ainda remanescentes da cultura grega.

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Estes jardins árabes em Alhambra, Granada, Espanha, nos faz lembrar a atmosfera multicultural e relativamente liberal que existia em muitas partes da Europa antes da Inquisição. Durante a Inquisição na Espanha, árabes e judeus foram exilados e qualquer um que tivesse algum tipo de pensamento divergente era severamente punido.

O desenvolvimento da ciência aconteceu neste meio de repressão tremenda às novas ideias. Cientistas e filósofos, tais como Galileu, foram punidos por heresias, como a afirmação de que o planeta Terra girava em torno do sol. Giordano Bruno, um filósofo e humanista do Renascimento, disse que Deus estava presente em toda a natureza e que o universo era infinito. Foi queimado no pelourinho, em Roma, por sua heresia em 1600. Os castigos eram mais do que severos para fazer qualquer pessoa pensar seriamente antes de praticar curas integrando corpo-mente. Ao mesmo tempo, a conquista da América com brutal genocídio destruiu as tradições de cura xamânica no nosso continente.

 

  • INFLUÊNCIAS DA VISÃO MECANICISTA DO CORPO

O desenvolvimento da ciência não poderia ser interrompido, mas muitos compromissos tiveram que ser assumidos com os poderes vigentes. Um desses estava centralizado na natureza do corpo. Com o despertar da ciência no Renascimento, havia um interesse em explorar o corpo de modo mais completo através da dissecação. Esta prática era condenada pela Igreja, porque se dizia que o corpo era o repositório da alma. Este conflito entre a Igreja e a ciência foi solucionado pela redefinição dos limites da alma. A alma foi transferida do corpo para a mente e diferentes territórios foram destinados à Igreja e à ciência. A ciência trataria do corpo, mas não interferiria na mente ou alma, que permaneceria no domínio da Igreja. A Igreja, por outro lado, concordaria tacitamente em relegar o corpo à posição de um objeto para ser investigado e quantificado como qualquer outro objeto da ciência. A ciência continuou, então, sua exploração do ser humano com a mente e o espírito retirados de seu campo de investigação.

Este era o cenário quando o filósofo francês René Descartes faz sua entrada no começo de 1600.
Descartes observara o crescimento da ciência e da matemática e sentiu que a filosofia deveria ter a mesma base empírica de certeza. Descartes postulou, em consonância com os desenvolvimentos que estavam ocorrendo na ciência, que o corpo é uma máquina que obedece a leis naturais fixas. Ele também acreditava que a mente pode funcionar independentemente do corpo. Ele exaltou o poder da razão e descobriu que o primeiro princípio verdadeiro e certo que pode ser assumido seria: "Penso; logo, existo". O conceito de Descartes do corpo como uma máquina separada da mente e da alma lançou a base para a maior parte da filosofia e da ciência até nossos dias.

 

  • INFLUÊNCIAS DA REFORMA PROTESTANTE

O monopólio de poder da Igreja foi diminuído pela Reforma Protestante, no século dezesseis, mas a separação entre corpo-mente-espírito não. Martinho Lutero, mais tarde, expandiu a importância do indivíduo ao manter que o homem era seu próprio elo com Deus. Esse era um Deus de fogo e enxofre que pedia ao homem para renunciar à carne. Lutero considerou a humanidade corrompida pela queda da Graça no tempo de Adão e Eva. O homem poderia redimir-se através:
- da fé,
- da moralidade e
- do trabalho árduo.

O trabalho árduo era visto como uma compensação pela culpa do pecado original! Na visão de Lutero, o papel do indivíduo torna-se mais importante, mas, também, mais negativo e é, na verdade, uma regressão ao patriarcalismo do Velho Testamento com o elemento adicional da ética do trabalho como meio de salvação.

A ética do trabalho, o puritanismo e o individualismo juntaram-se com a visão mecanicista do corpo e produziram duas outras bases importantes da nossa perspectiva sobre o conceito corpo-mente-espírito:

  1. A ciência causou o aparecimento da revolução tecnológica que, combinada com a ética do trabalho, resultou no mito do progresso. Essa é a ideia de que o tempo e a história são lineares. Com o tempo, a ciência e a tecnologia, aliadas ao trabalho árduo, criariam um mundo melhor, no qual todos os segredos da natureza seriam revelados. As atuais crises do aquecimento global e outros problemas do meio ambiente apontam para a natureza mítica e enganosa dessa crença.
  2. Quando se acrescenta o individualismo à ética do trabalho e ao materialismo científico, o resultado é o mito do sucesso. Esta é a ideia pela qual todo aquele que trabalhando arduamente e usando a inteligência científica racional com a correta tecnologia poderia ver realizados todos os seus objetivos pessoais desejados. Este foi o modelo dos Estados Unidos dos anos 50. Apesar do sucesso ter produzido abundância material, a visão materialista do ser humano deixou tanto a mente, quanto os espíritos insatisfeitos, levando ao neorromantismo dos hippies na década de 60 e no começo da de 70.

 

  • A BUSCA DO PENSAMENTO ORIENTAL

A inquietação daquela geração girava em torno da percepção de que enquanto a tecnologia estava melhorando a vida material, as pessoas estavam mais infelizes do que nunca, e a vida moderna estava cheia de agentes estressores que não existiam nas sociedades menos desenvolvidas. Este questionamento levou a uma busca mais humanística do ser e a viagens à Índia, onde a separação entre corpo-mente-espírito não tinha ocorrido de forma tão dramática. A emergência da religião oriental e da cura mente-corpo é o resultado desse novo humanismo nos Estados Unidos dos anos 60.

 

 

INFLUÊNCIAS DA RETOMADA DA VISÃO DE INTEGRAÇÃO CORPO-MENTE-ESPÍRITO

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Hoje, nos encontramos numa nova fase, onde a integração do corpo-mente-espírito está se tornando parte da corrente central de nossa cultura. A ciência e a medicina respaldam a conexão corpo, mente e espírito, em vez de trabalhar contra ela.

Mesmo que a integração corpo-mente-espírito se torne parte da corrente central de nossa cultura, as noções inconscientes e subjacentes que influenciam a percepção básica do ser humano estão tão entranhadas, que afetam nossas vidas por inteiro, nosso sistema de saúde e mesmo a maneira como vemos e praticamos Yoga.

O Yoga descontraído dos hippies nos anos 60 e 70 está se tornando o Yoga empresarial do novo milênio, à medida que o Yoga assume um pouco mais do legado dos mitos do progresso e do sucesso. O Yoga se direciona para a realização e o sucesso, com ênfase nos objetivos pessoais do indivíduo. As próprias aulas de Yoga estão adquirindo um ritmo mais ágil, direcionadas para um objetivo, como se houvesse algo a atingir.
Muitas vezes o corpo é visto como matéria-prima que é submetida a um processo tecnológico (Yoga) para atingir o sucesso, através de um trabalho árduo, para obter melhor saúde, postura, aparência, etc. Esta abordagem do Yoga seria quase incompreensível para os primeiros yoguis que desenvolveram a ciência do Hatha Yoga.

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