Na casa de Deus

Uma aventura ao Monte Kailash, morada de muitos deuses e poucos homens

Fotos e texto: Arthur Veríssimo

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Ao avistar, da janela do avião, o majestoso relevo dos picos nevados do Himalaia, meu coração disparou. O comandante da aeronave direcionava nossos olhares, indicando a presença do exuberante Everest com seus 8.848 metros e seus parceiros Lhotse, Makalu, Changtse e Nuptse, todos com mais de 7.500 metros.

O sistema montanhoso do Himalaia forma um gigantesco arco com 2.500 km de extensão, com uma largura que varia de 400 km a 150 km. Estima-se que tenha mais de 40 milhões de anos e que continue a crescer devido ao movimento das placas tectônicas. Naquele momento, contemplando o Himalaia lá de cima, consegui, como por milagre, tranquilizar minha mente. Havia passado dias de sufoco em Katmandu aguardando o visto e uma miríade de autorizações do consulado chinês para viajar para Lhasa e outras regiões do Tibet.

O Tibet de Hoje

Durante quase um ano, organizei uma megaoperação para viajar ao Tibet e acompanhei diariamente o termômetro da política e relações conturbadas das autoridades chinesas com os tibetanos. Desde o início de 2008, muitas manifestações pró-autonomia do Tibet terminaram em violência e centenas de mortos. Antes das Olimpíadas, o governo chinês decidiu fechar a região para o turismo, só abrindo, com muitas restrições, a partir de julho. Jornalistas que conseguiram infiltrar-se passando como turistas foram detidos e passaram por constrangimentos e humilhações.

Lhasa está a 3.600 metros de altitude e, ali, muitos viajantes sofrem do mal das alturas. Tudo é difícil; respirar, andar, dormir e pensar. Os principais sintomas são: dor de cabeça, náusea, falta de apetite, insônia e dificuldade respiratória. Aproveitei o ensejo e fui fazer uma consulta no Instituto de Medicina Tradicional Tibetana. Saí do local com preciosas poções mágicas para a altitude. Nas próximas duas semanas, iríamos explorar e percorrer o platô tibetano em uma altura media de 4 a 5 mil metros. Nosso destino, uma remota e inóspita área no oeste tibetano a 1.200 km de Lhasa, a montanha mais sagrada de toda a Ásia para bilhões de pessoas: o monte Kailash.

Na estrada

Nossa equipe para a expedição era composta por dois motoristas (Tenzin e Kalu), guia (Mia), cozinheiro (Lobsang), meu compadre André Meyer e este escriba oxigenado. Viajamos em dois veículos: um Toyota Land-cruiser e um caminhão repleto de víveres alimentícios, centenas de garrafas de água mineral, tubos de oxigênio, barracas e apetrechos para cozi-nhar. Saímos de Lhasa com a intenção de caminhar ao redor da montanha sagrada, na lua cheia.

Esta volta ao redor da montanha é chamada de circumambulação, uma perambulação em círculo e a pé. Os hindus chamam esta volta de parikrama. Os tibetanos se referem a ela como kora. Para os hindus, o Kailash é a morada mítica do Deus Shiva (o destruidor e transformador da tríade hindu) e de sua esposa Parvati. Para os tibetanos, é o aposento de Demchog. Sua consorte, Vajra Varahi, está agarrada a ele, em união sexual.

Ao redor do Kailash, encontram-se outras entidades sentadas em filas circulares. A todo, são 990 filas, com 500 entidades em cada uma. Para a religião jainista, fundada 600 anos antes de Cristo, a montanha é chamada de Ashtapada e seu fundador, Rishabanatha, vive em seu cume em estado de meditação. E, finalmente, para os Bon-pos, antiga religião pré-budismo tibetano, a montanha é a alma mística da região, e é chamada de montanha da suástica. Segundo o venerável Lama Anagarika Govinda, “Aquele que realizar o ritual de circundar o Kailash, com uma mente perfeitamente concentrada e devota, passará por um ciclo de vida e morte”.

Nosso primeiro dia de estrada foi um espetáculo contínuo de cenários lunares, vales, lagos azul-turquesa e alguns nômades com seus yaks, (vacas peludas, típicas da região). A primeira parada, depois de oito horas de viagem, foi na cidade Gyantse, a 250 km de Lhasa. Na manhã seguinte, visitamos o monastério Pelkor Chode. Fundado em 1418, é constituído por três diferentes ordens do budismo tibetano. O complexo comporta as seitas Gelupa, Sakyapa e Kagyupa. Nos fundos de um dos mosteiros Kagyupa, entramos em um setor deveras sinistro. Era uma sala repleta de tankas e estátuas de divindades iradas. Na escuridão do local, detecto duas imagens: Yamantaka e Mahakala. Dois monges enormes aparecem, como por encanto, de uma quebrada da sala e, com um sorriso de outras esferas, perguntam se desejo fazer alguma oferenda. Saúdo e me reverencio a Mahakala.

No meio da tarde, chegamos a Shigatse, a segunda maior cidade no Tibet, e onde está localizado o estupendo monastério Tashilumpuda, residência oficial das reencarnações dos Panchen Lamas. Atualmente, o 11º Panchen Lama (Gendun Choekyi Nyima) é considerado o mais jovem prisioneiro político no mundo. Nasceu em 1989 e foi oficialmente declarado o novo Panchen Lama, em 1995, por sua santidade, o Dalai Lama. Foi sequestrado, logo na sequência, por autoridades chinesas, e desde então ninguém mais o viu. Neste cenário esfacelado das tradições vivas do povo tibetano, o Panchen Lama é o segundo na hierarquia dos líderes espirituais e sua importância é fundamental na identificação do próximo Dalai Lama.

Quem disse que seria fácil?!

Nosso guia, Mima, insistia que, a partir da próxima cidade, não teríamos mais chuveiro, água quente, cama confortável e informações via TV e internet. Acamparíamos pelo platô e vivenciaríamos o estilo de vida tibetano, selvagem e nômade.

Como estava ansioso para chegar o quanto antes ao Kailash, não me dei conta da qualidade da barraca, que era um lixo e não suportou o frio de sete graus negativos na madrugada. Roupas, botas e acessórios congelaram. Quase tive um treco. Re-clamei impetuosamente com Mima que conversava em tibetano com o motorista.

O bem-humorado cozinheiro Lobsang aquecia um panelão de água, uma parte para lavar o rosto e o restante para o chá. Desmontamos o acampamento e seguimos para a cidade de Saga. Na única rua da cidade, um hotel espelunca nos chamou a atenção e paramos para ver se existiam acomodações disponíveis. Um senhor educadíssimo aproximou-se e contou que haviam acabado de chegar do parikrama (a volta ao redor do Kailash). No meio de um grupo de velhinhas com tubos de oxigênio, surgiu um saddhu (renunciante indiano) com um rosário de ouro, que lançou um olhar fulminante para o André Meyer. Queria saber qual era a nossa onda. Ficamos conversando e tomando chá de jasmin durante um par de horas em que ele contou histórias fascinantes sobre o Kailash e o significado de realizar a peregrinação. Aquele discípulo de Shiva já havia feito o parikrama, ao redor do Kailash, por 22 vezes.

Para os hindus o Kailash é a morada mítica do Deus Shiva e de sua esposa Parvati. Para os tibetanos, é o aposento de Demchog e de sua consorte Vajra Varahi.

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Beleza divina

Acordamos antes do amanhecer. Teríamos de rodar mais de 10 de horas para chegar a Darchen, o ponto de partida para o trekking (peregrinação) ao Kailash.

Quando faltavam duas horas para Darchen, finalmente vislumbramos o maravilhoso cume prateado do Kailash, resplandecendo na imensidão do horizonte. As estradas por onde passávamos são obras recentes do governo chinês. Há séculos, os peregrinos chegavam a esta remota região viajando a pé ou a cavalo. Levavam meses e anos caminhando de pontos longínquos da Índia e do Tibet.

O poder da montanha é inexplicável. O potencial da viagem espiritual não diminui o prazer da aventura. A peregrinação é um momento de alegria e celebra-ção, uma quebra na rotina na qual o mundano e o divino caminham, lado a lado. Os peregrinos aceitam os obstáculos e dificuldades sem reclamações: a circumambulação é a lapidação de um novo ser.

Antes dos primeiros raios de sol, fizemos nossos preparativos e partimos para o início da circumanbulação (parikrama, kora, trekking) do Kailash. O circuito é de 52 km e o recomendado para os peregrinos é realizá-lo em três dias. Alguns tibetanos turbinados fazem o circuito em torno de 16 a 19 horas. É dito que uma volta completa apaga todos os pecados e mazelas desta vida; 10 os atos maléficos de várias reencarnações, e 108 garantem o nirvana.

Nosso planejamento seria caminhar 20 km até a entrada do mosteiro de Dirapuk.  Caminhamos os primeiros 6 km com uma disposição de yeti (o homem das neves). Meus pés marchavam em um ritmo seco e uniforme e meus pensamentos se misturavam com o uivo constante do vento.

Além das câmeras fotográficas, carregava na mochila frutas secas, nozes, castanhas, granola e quatro litros de água. O altímetro indicava 4.820 m e o dia escoava em outra dimensão. Fizemos nossas reverências quando passamos pelo Chukku Gompa, o primeiro monastério da romaria.

Quando um incenso é aceso, mesmo depois de queimado, seu aroma se espalha por todos os lados. Da mesma maneira, peregrinar ao redor do Kailash, onde sábios, santos, iluminados, yogis, rishis e lamas vivem ou viveram no passado, nos contamina pela atmosfera repleta de vibrações sutis de suas realizações espirituais. Um gigantesco campo magnético emana no circuito do Kailash. A montanha é o imã e os peregrinos as partículas de ferro que são atraídas pela atmosfera espiritual. Este era o tesouro que alimentava nossas aspirações: fazer parte da egrégora dos devotos da montanha sagrada.  

O sol ainda irradiava na face norte do Kailash quando chegamos à porta de entrada do monastério Dira-puk. Uma senhora surgiu e nos acomodou em um quarto logo abaixo do salão principal do monastério.

Acordei por volta das 2 horas da madrugada e fui contemplar a lua cheia. Após um tempo de meditação, o abade do mosteiro apareceu e nos convidou para tomarmos um Bo cha.  Esta bebida de leite e manteiga de iaque, sal e chá verde concentrado, tem um gosto amargo e ajuda a manter o corpo aquecido e alimentado (a temperatura extrapolava os cinco graus negativos).

Primeiros ocidentais

O Kailash e o lago Manasarovar permaneceram desconhecidos para o mundo ocidental durante séculos. Os primeiros europeus que passaram pela região foram os missionários jesuítas, Padre Ippolito Desideri, italiano, e Manuel Freyre, português. No inverno de 1715, eles cruzaram o oeste tibetano, seguindo o curso do Rio Tsangpo (Brahmaputra) até Lhasa. No caminho, passaram pelo lago Manasarovar e por uma enigmática montanha escondida sob as nuvens.  A montanha era o Kailash. Um século depois, o Kailash se tornou a peça chave de um quebra cabeças geográfico, que intrigava exploradores europeus. No início de 1812, o inglês William Moorcroft, com uma grande expedição, despertou o interesse dos britânicos pela região.

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Os peregrinos aceitam obstáculos e dificuldades sem reclamações: a circumambulação é  a lapidação de um novo ser

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O Monte Kailash é considerado um dos mais importantes destinos de peregrinação do planeta

O Monte Meru está inserido em diversos mitos e escrituras sagradas como sendo o Kailash. Uma descrição espetacular no Vishnu Purana, texto hindu de 200 a.C. diz que: A montanha cósmica nasce à altura de 84.000 léguas no centro do universo, circundada por anéis concêntricos dos sete continentes e dos sete oceanos. As quatro faces da montanha são orientadas para as quatro direções. O leste é de cristal, o oeste de rubi, o sul é de lápis-lazúli e o norte é de ouro. O sol, a lua e as estrelas seguem seu curso a partir desse estonteante eixo central e das suas múltiplas camadas de reinos do céu, da terra e do mundo subterrâneo, que se espalham ao seu redor. Do seu topo, o sagrado Rio Ganges cai do céu e se divide em quatro grandes rios que despejam água para os quatro cantos da Terra.

Provavelmente, peregrinos e exploradores retornaram com histórias sobre a grande montanha, o eixo do mundo, um conceito que viveu na lenda do Meru, mesmo depois que os fatos foram esquecidos. Séculos depois, os hindus passaram a venerar o Kailash como Meru, o centro sagrado do mundo. Assim, fato e mito se uniram novamente.

Pertinho de Deus

Antes do amanhecer, já estávamos prontos para o dia mais desgastante. Subiríamos até o Drolma-la, a parte mais alta da rota, a 5.630 metros de altitude, e dormiríamos no Zutulpuk, monastério distante 18 km do nosso ponto de partida. A cada dez passos parávamos para bebericar água. Respirávamos com extrema dificuldade o ar seco e rarefeito. Percebi um bafafá entre o grupo de russos que caminhavam logo à nossa frente: duas mulheres não aguentaram e tubos de oxigênio foram acionados.

A 5.330 metros, chegamos a um ponto nevrálgico da caminhada. O local chama-se Shiva-tsal e representa, no rito de passagem, o momento da mortificação. Por todos os lados, roupas, objetos, chumaços de cabelo dos peregrinos são deixados para trás, num verdadeiro ritual simbólico de renúncia. O renascimento aconteceria, um pouco mais acima, no Drolma-la.

Quando chegamos ao ápice do circuito, nossa água havia terminado. Nosso guia esqueceu da água e trouxe apenas um tubo de oxigênio. Ficamos por alguns minutos acompanhando os peregrinos estenderem as bandeirolas de oração. André ainda tinha um dedo de água na última garrafa. Renascidos, descemos uma imensa pirambeira com mais de 500 metros e eu, em um acesso de fúria, quase esganei o guia pela falta de água. Não conseguia falar pela secura instalada em meu organismo.

Depois de horas, encontramos, milagrosamente, um nômade em uma barraca, vendendo chá com leite de iaque e algumas garrafas de água. Revigorados, continuamos a saga, impulsionados por uma energia fenomenal.

Purificação

Fazer o kora é como passar por uma máquina de lavar espiritual. O campo energético de cada pessoa é purificado em todos os níveis, à medida que ela entra em sintonia com a frequência elevada da corrente. Um verdadeiro trabalho de cura se operava no meu corpo e espírito.

Ao final da tarde, com o tempo encoberto, chegamos ao Monastério Zutulpuk (caverna dos milagres) e caímos no sono.

Na terceira e derradeira etapa, todos os obstáculos e dificuldades haviam se dissipado, e aproveitávamos as vibrações espirituais existentes nesse local místico. Descíamos flutuando pela trilha que irradiava uma força tão benéfica e irresistível que problemas outrora considerados insuperáveis se dissolviam, a cada respiração.

Finalizávamos a romaria no belvedere dos deuses, avistando, ao fundo, o lago Manasarovar e o Gurla Mandata, em seus 7.694 metros de altitude. Naquele ponto, percebi a transparência da natureza e, conscientemente me beneficiava dos maravilhosos efeitos da atmosfera, pelo simples fato de estar lá, em paz.  

Qual é o segredo do Kailash? A razão de toda esta ligação entre o ser humano e a montanha?

Afinal, o Kailash não é mais sagrado que nenhum outro lugar no mundo, somos nós que o fazemos assim. Como um espelho, a montanha reflete de volta a divindade que temos em nossa alma. Reaprendemos a andar, olhar, escutar, respirar e conectar. Essa sensação de liberdade sem fronteiras é um presente enigmático do Kailash.

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Legenda: Arthur Veríssimo é jornalista e peregrino. Agradecimentos: Raidho Turismo, Editora Trip e ao amigo André Meyer

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