Os Cinco Kleshas na Visão da Yogaterapia

Por Joseph Le Page

Dentro da Yogaterapia, toda cura vem através do reconhecimento da unidade. Na sua definição de saúde e doença, corpo, mente e o espírito são um só. Em nossa cultura está havendo um retorno à valorização do conceito de unidade e integração entre corpo, mente, espírito, mas de modo geral eles ainda são considerados como separados.

Qual seria o processo através do qual uma pessoa vai se distanciando do estado de saúde e tornando-se mais suscetível à doença? Esse processo está escrito nos Yoga Sutras de Patanjali como os Cinco Kleshas. A palavra klesha tem muitas definições, e dentre elas encontramos a palavra obstáculo. Hoje, vamos nos referir à palavra klesha como doença. Patanjali falou sobre os cinco kleshas:

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O primeiro é Avidya - Como seria avidya comparado com vidya? Vidya é o estado de conhecimento da nossa realidade última – no qual reconhecemos nossa verdadeira natureza como unidade. Essa unidade para além da multiplicidade, pares de opostos, sustenta e permeia toda a criação – a unidade que tudo contém, nada faltando e sem dualidade. Como seria uma vida de vidya na prática? Em cada momento eu nunca vejo o eu e  o você, eu nunca detecto a falta de algo e assim não tento buscar nada fora: eu sempre vejo o “nós”, nós numa jornada para reconhecer que somos inteiros.

Em avidya, vamos ver o mundo através da dualidade como realidade última - como várias coisas separadas de mim, basicamente às vezes me sentindo um vaso parcialmente cheio, às vezes um vaso que está temporariamente totalmente cheio ou vazio dependendo da opinião dos outros. Às vezes me faltam qualidades, me falta poder, me falta dinheiro, me falta dignidade, me sinto incompleto e defeituoso.

Em relação às posturas de Yoga, poderíamos nos sentir próximos da perfeição ou imperfeição de acordo com o poder ou não fazer a postura completa! - “Eu vou me sentir uma pessoa adequada quando finalmente....”, e assim achar que seríamos completos apenas quando conseguirmos colocar o corpo numa posição tal.

As posturas podem ser veículos na aquisição de um nível maior de maturidade, avanço em determinadas áreas, mas em si mesmo não tem valor algum. Em última análise, o Yoga existe para nos mostrar que já somos completos, inteiros. Ao longo da vida, em geral as pessoas vão estar sempre em avidya, na roda do samsara, percorrendo sempre o mesmo círculo vicioso e a vala que vão cavando vai se aprofundando cada vez mais. Nesse processo sabemos que não podemos apenas dizer: “Eu sou bonito, sou bom,”, pois em determinados momentos os velhos padrões vão entrar dizendo o oposto. Por isso, os Yoga Sutras tem 196 versos. Vidya é uma vida sem dualidade, uma visão não dual da vida e avidya é a dualidade, eu separado de você com o sentimento: “Eu vou viver para conseguir tudo o que quero e evitar tudo o que não quero” - isso funciona até certo ponto, dá o espectro completo do estado de miséria que nos encontramos quando vivemos em função da montanha russa dos gostos e aversões, pois as quantidades de coisas que queremos e de que não queremos são ilimitadas.

profyoga 0326O segundo klesha é Asmita – “Eu vivo nesse mundo de dualidade, Eu sempre coloco o Eu no meio (egocentrismo). Consiste num modo de encarar a vida no qual eu tenho que arranjar as coisas para meu benefício e isso poderia ser feito através de diversas maneiras: trabalhar duro, manipular, enganar, roubar ou até mesmo tentar conseguir as coisas do meu jeito através da doença, chamar a atenção do outro para minha pessoa. Loka Sangrana - Todo mundo trabalhando junto com um objetivo, um projeto comum, em cooperação, havendo uma interdependência e mais que isso, uma meta única.

O terceiro e quarto Klesha são Raga e Dvesha - Raga é o nosso desejo, tudo aquilo que queremos. Dvesha é tudo aquilo que não queremos. Tudo o que eu gosto, tudo o que eu não gosto. É prazer como a dor (foi assim que Freud definiu o homem). Na vida de Karma Yoga, eu vou usar todos os meus ragas e dveshas para lixar, para polir as arestas, mas também nesse processo não vamos considerar as arestas como lixo e sim vamos considerá-las como poderes, poderes dignos de um ser humano, como por exemplo paixão ao querer as coisas.

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Todos esses poderes são dignos da sobrevivência do ser humano quando eles estão gerenciados e controlados, nem podemos imaginar uma vida sem desejos. O terceiro sutra dos Yoga Sutra fala daquele que fica feliz na sua própria natureza e observa as tendências sem julgar. Existem maneiras rápidas de controlar raga e dveshas - são rápidas mas não são duradouras, como por exemplo o uso da morfina, o suicídio entre outras possibilidades. Se a ideia fosse apenas cortar esses pensamentos negativos momentaneamente, o Yoga não seria necessário. A ideia é canalizar raga e dvesha para Loka sangrana – para projetos que vão ser bons para o bem de todos, isso não quer dizer que terão 100% de êxito, vamos ter que tomar decisões (não somos 100% sábios), mas é o melhor que podemos fazer nesse momento segundo o nosso entendimento.

O quinto Klesha é Abinivesha - É a crença na vida e na morte. Se você analisar bem, é uma crença sem fundamento. Por exemplo: O mundo é limitado, os recursos são limitados, nessa vida temos que conseguir tudo e conquistar tudo antes que nosso tempo aqui na Terra termine, como se fosse uma corrida, a corrida de vida até a morte. Quem ganha? Aquele que morre com mais status, mais experiência, mais relacionamentos, aquele que consegue passar a lua de mel no castelo da revista caras? Essa vida vai ter um fim e eu tenho que conseguir tudo o que puder. O que se vê quando uma pessoa vai da classe média para a alta é que vai necessitar proteger a nova casa, criando muros altos, colocando grades nas janelas, vai criando mais e mais separação do mundo. Se olhamos uma penitenciária o que temos é a mesma coisa: muros e separação do mundo, só que de forma invertida. Os ricos saem de trás dos muros de suas casas com carros blindados e os detentos saem da penitenciária para o fórum também com carros blindados. Chega o momento que a lógica de ganhar e ter mais vai cair por terra, vai desmoronar. Sob o ponto de vista do Yoga, a visão é oposta: Eu vim para essa vida com tudo o que preciso, a vida me sustenta, e depois que esse corpo morre, a vida como um processo amplo continua: e esse processo maior somos nós.

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Os cinco kleshas estão intimamente relacionados com o estado de doença e saúde. Em avidya os estresses são ilimitados, raga e dveshas são ilimitados. Em vidya eu vou usar o estresse para aprender sobre mim mesmo, pois vou usar esse estresse para aprender a natureza do estresse e entender a origem dele. O medo não tem limites pois o número de coisas no mundo que podem causar ameaça são ilimitadas (trânsito, pessoas na rua, pessoas na empresa, outros estilos de Yoga, outros professores de Yoga, etc.).

No mundo da dualidade tudo pode ser uma ameaça, a competição é ilimitada. Em vidya estou tentando usar raga e dvesha para purificar, para lixar, para polir. Os medos são ilimitados, vejo o mundo natural, mas vou resolver esses medos através da redução gradual do sentimento de separação entre mim e o mundo. Podemos tentar afastar as ameaças, mas só existe uma ameaça, nós mesmos. No lado de avidya, a raiva é ilimitada. A natureza do animal é usar a raiva para conquistar determinados fins - o leão usa a raiva para atacar a presa. No mundo há pessoas buscando desejos ilimitados. No mundo há pessoas com raiva ilimitada. É comum que a raiva esteja presente no ser humano quando as coisas no mundo não caminham da mesma forma que deseja – a raiva pode ser ilimitada. A raiva é um reflexo da falta de aceitação da vida como ela é. Quando somos movidos por avidya, queremos que o mundo nos devolva as coisas segundo nossas expectativas. No mundo de vidya as pessoas são como são, e a felicidade que busco já existe dentro de mim. Quando o mundo não me dá aquilo que desejo, uso essas situações como oportunidades para lixar as arestas. Em vidya nada é pessoal, quando sua mãe, seu pai, seu companheiro não lhe deram aquilo que queria, isso não é pessoal, é impessoal. Você não é o único que deixou de receber um abraço acolhedor do pai. Os fatos são impessoais e a maioria de nós os considera como pessoais.kleshas

Há uma escritora chamada Ângela Ariens que descreve a iluminação como o fim dos padrões, do ciclo dos condicionamentos: Eu sou o fim desse padrão; Eu quebro o elo desse padrão que vinha acompanhando minha família, geração a geração (Ex: abuso de família). A minha iluminação representa o fim desses padrões culturais. Eu terminei esses padrões: abuso, racismo. Em mim isso tudo terminou, não vai mais para frente, não vou mais alimentar esse ciclo. Em avidya, a tristeza é ilimitada, eu chego com o copo vazio e preciso estar sempre enchendo até o fim da minha vida. Estou sempre medindo entre a minha expectativa e aquilo que ganho e a diferença é a tristeza. A depressão é o ato de entregar-me ao fato de que as minhas perdas vão ser sempre maiores do que os meus ganhos. A pessoa deprimida vive no mesmo mundo do yogue, mas exatamente de forma oposta. O deprimido diz: “Eu vou desistir porque não tenho a possibilidade de ganhar.” O yogue diz: “Eu desisto porque não tenho a possibilidade de perder, porque já estou completo, inteiro, tudo o que preciso está dentro de mim, não tenho como perder, não tenho como ganhar.

Por que fazer Yoga? Eu faço Yoga para reconhecer o Ser real que está sempre presente e para eliminar os obstáculos que impedem esse reconhecimento. Quais são os obstáculos? São os cinco kleshas. É possível superar esses obstáculos através do Yoga. Os vrittis são todos os pensamentos que eu uso para sobrevivência. Os padrões de pensamentos negativos na sua raiz são positivos: a raiva serve para mostrar os nossos limites, o medo é necessário para evitar o perigo. Não existe lado negativo sob a perspectiva do Yoga, quando separamos os pensamentos em positivos e negativos estamos do lado de avidya.

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